domingo, 4 de abril de 2010

distraídos venceremos

Tudo o que eu faço
alguém em mim que eu desprezo
sempre acha o máximo.

Mal rabisco,
não dá mais para mudar nada.
Já é um clássico.
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não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase
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como se quase, existindo,
só nos faltasse o talvez.
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Paulo Leminski

petisca

"...Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade..."
Drummond

tem tanto tempero no mundo e você comendo a mesma comidinha de sempre.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Córtex motor

Não consigo pensar uma idéia. Escrevo. Tudo passa pelo meu córtex motor.
Não sei de amor platônico, mas de sexo apaixonado.
Não ouço música, danço qualquer som.
E só penso frases incompletas e fragmentadas. Não sei pensar. Sei escrever. Enquanto não escrevo, sou um bicho, irracional. Enquanto não escrevo, não sei explicar porque escrevo.
Sinto o mundo em uma caminhada, nos meus pés. Na respiração ofegante e no coração arrebatado. Epifanias de bêbados nas ruas. Cansaço de escada rolante. Registro uma fração do mundo, enquanto sinto ele todo. A fala induz à mentira involuntária. A escrita é a elaboração. É onde a mentira se realiza, onde tem espaço para crescer, sem reprimendas, sem qualquer escrúpulo. É o que se espera dela. É o seu terreno natural. O mundo recrimina os maus mentirosos. Os bons fazem arte. Sinto nos músculos tudo que minto. Não minto acordada. Escrevo imersa em um sonho, sem dor, sem cansaço, sem nada. Só clareza. Só certeza. Só epifanias ébrias, esfumaçadas, não meditadas. Uma confusão que se concretiza, sem se render ao racionalismo. É a loucura que se torna pedra. Se torna viva. E é entendida. Só é louco quem não escreve. E que jogue a primeira pedra quem conseguir.

Nem eu sei

Eu não sei explicar. São as pequenas coisas que explicam tudo. O sorriso maroto no canto da boca. O olhar que foge e volta. A vontade de ir. A vontade de ficar. Ninguém entende. Você entende. Mas cadê você?
As pessoas não escutam mais. Não gostam das entrelinhas. Não exageram na tentativa de conseguir um pequeno conforto diário. Preferem manter as dúvidas bem escondidas e as desgraças disfarçadas.
E eu sinto falta do que nunca foi por nunca ter sido. Sinto falta de te ver em todos os lugares. De ler suas dúvidas, de advinhar tuas entrelinhas, de ter jogo de cintura para dormir e não sonhar com você porque falta estar.

Mas eu gosto de sentir essa falta e continuar.

whatever works

Inspiração.

Com cerveja é mais gostoso. Com cerveja é mais fácil. Com cerveja é uma delícia.

Inspiraexpirainspiraexpira.

Só não pode ficar sem ar. Também não pode cobrar. Não pode manter expectativas. Não pode achar coisa alguma. Não pode nada, mas tudo é permitido. Fique bêbada. dance. fale alto. grite. Peça chocolate às 3 da manhã, cafuné às 10 e um cochilo às 4 da tarde. Se descabele, se faça de santa. Seja responsável, perca a peruca. Vai nadar, vai correr, passe um dia na frente da tv comendo pipoca. Tome um litro de coca-cola e dois de água. Fique horas na internet. Viaje. Ouça música. Durma o dia inteiro. Saia para andar e dê voltas no mesmo quarteirão. Faça um bolo de chocolate, coma com sorvete. Goze. Tome banho de madrugada. Tome banhos longos. Tome banhos frios. Sussurre. Leia dramas. Leia comédias. Leia contos e crônicas. Escreva poesias. Berre.


Mas nunca, nunca peça desculpas por ser quem você é. Essa é a única coisa que não é permitido.

domingo, 28 de março de 2010

razão, razões

" (...) Havia então os conformistas, assim chamados. E os conformistas do inconformismo. Perguntavam-se, uns aos outros, qual era o inconformismo mais na moda. E o seguiam. Ninguém, literalmente ninguém, ousava encarar a realidade. A língua falada era deturpada sistematicamente. Ninguém escrevia o que se dizia. Ninguém dizia como se devia dizer. Então, quando um dizia como devia, era acusado de falso ou de falsário. (...) Os mais atrasados continuavam a acreditar que o Sol girava em torno da Terra. E eu, de Galileu, ali, a ter que lhes dizer, sabe, olha! Enquanto isso uma meia dúzia, com a visão um pouco mais adiantada, já afirmava "corajosamente" que a Terra é que girava em torno do Sol. E eu, em pânico, tendo que lhes tornar a afirmar a evidente verdade de que isso era mentira. E só olhar o transcurso de um dia para se perceber a falácia de todos os princípios: nem a Terra gira em torno do Sol nem este gira em torno da Terra. Só existe a dinâmica pura, que torna a ação a suprema afirmativa, e transforma a vida num gigantesco happening, onde qualquer afirmativa é leviana, pois já está morta no instante de nascer. (...) Ninguém se dava. Trocava-se. Se me lês, te leio. Ninguém exigia. Barganhava-se. Os que gritavam estavam apenas querendo o posto de coordenador do grito, ou, pior, censurador do grito, impedidor do grito que não fosse o seu. Os que ouviam os gritos não concordavam com eles, mas deixavam-se intimidar. E criava-se, assim, o Ministério das Perguntas sem Resposta, é isso. E tínhamos todas as respostas prontas para perguntas que ninguém nunca fazia. Ninguém nunca faria. Brandiam-no, usavam-no, apontavam-no, mas não acreditavam nele. Tinham bastante razão, já que o povo também não se acreditava. O povo não existia. Estava ali apenas de passagem, para assumir um cargo de vigia, um posto de chefia, subir um degrau a mais na escada, uma escada medíocre mas com bastante degraus, quase escada de Jacó de tão longa. Não havia o perigo de se bater com a cabeça na igualdade. (...) De modo que, depois de perder o bonde e a esperança, o país perdeu, sucessivamente, o trem e a vergonha, o navio e o estímulo vital, o avião a jato e a ira sagrada. O escotismo não me seduzia. O único Baden Powell que me seduzia era o da viola. Se eu tocasse daquele jeito pegava o violão e ia tocar nas profundezas do inferno. Juro! Mas eu mexia com o diabo da palavra e, pouco a pouco, fui me aprofundando até chegar à conclusão de que ninguém sabe duas línguas e só vive na sua. Tinha uns que pensavam que eu sabia alemães, greguices, latinadas, anglo-saxomanias, que isso é que importava. Importava até onde? Mas a minha palavrinha doméstica essa eu tinha aprendido. Era minha amiga, íntima paca. Eu fazia o que queria com ela, pelo simples fato de que deixava ela fazer o que queria comigo. Foi vindo e indo, a coisa. Um dia percebemos que estávamos apaixonados, a palavra e eu. Que eu podia procriar nela: e ela deixava. Era uma arma de fazer coisas quase indizíveis. Se chamava, acho, precisão. Juntos, ela e eu, nos colocamos a serviço de coisas tão essenciais, que nos doíam. Pelo supremo orgulho de ninguém nos entender e à nossa comunhão. E aí nós sentamos e escrevemos, com precisão científica, vendo o que queríamos, como ia o mundo, no exato ponto ótico em que vivíamos, o mundo, sim, 1963. O mundo em geral, o mundo nosso, Brasil, o mundo meu, em particular. Uma simbiose, se é que isso não é uma doença. E Millôr olhou e viu que o mundo não era bom. E aí consertou os mares e os ares e não ficou satisfeito. E aí consertou os lares e os bares. E Millôr olhou os lares e os bares e viu que os lares e os bares não eram bons. E então, no terceiro dia, descansou. Depois descansou também no quarto e no quinto e só foi pegar no batente de novo no sexto porque chovia e não dava praia. E, como chovia, Millôr olhou outra vez e viu que viver tinha se tornado mortal."

Millôr Fernandes. Prefácio de Flávia, cabeça, tronco e membros.

sensacional!!!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Roda Gira

when I touch your hand...



I Am Kloot!