já que todo dia ela faz tudo sempre igual, hoje podia ser diferente. todo dia poderia...
e é por isso que hoje (quiçá sempre) eu quero que uma coisinha pequenininha me surpreenda. pode ser? não é pedir muito, é?
Aqui vale tudo, todos os humores. e também vale sazonar. vale em todas as línguas, até a inventada. Aqui cabe tudo. eu, você, eles. e também os filmes, os livros, a música e a ciência. um bocadinho da nossa dieta onívora!



Copo meio cheio, meio vazio? Nunca é. Nada será como vc imaginou, nada será ideal, nada é perfeito. As coisas são e ponto e pronto. Viver. Só isso que precisamos fazer. E da melhor maneira possível, do jeito de cada um. Tentar fazer isso sem culpa, sem cobrança. Esse é o problema. O maior deles. Expectativas dos outros que viraram nossas. Viraram minhas na hora que eu aprendi a fazer xixi na privada e abdiquei da fralda. Depois disso foi só no imperativo. Meu e deles. Faça. Seja. Queira. Sei. Fácil, né?!
De algum jeito é. Alguém sempre vai te dar alguma coisa que você quer ou precisa, na hora certa e na hora errada. Importa e não importa, mas faz tudo valer a pena. As coisas simples. A euforia de momentos bobos. A beleza trivial dos atos e dos fatos. Só lembre-se de encher o copo meio vazio com sabores diferentes e tomar sem medo. Pode vir um gosto amargo ou azedo, mas será diferente. No fundo, é só isso que interessa.
Sem otimismo, sem pessimismo. Afinal, o otimismo de um pode levar a cegueira, ou te manter numa ingenuidade perigosa, mas também leva à esperança e à confiança. E o pessimismo, e a crítica? Morreria sem ou com ela? Ela que me deixa desconfiada, incrédula, cética. Ela que resiste a tudo e a todos, mas que eu não sei deixar de ouvir. Deveríamos conseguir manter a ingenuidade parcial das crianças e a desconfiança dos adultos. Sem se jogar de mais, mas, principalmente, sem se jogar de menos. Senão tudo perde a graça. Tudo.
Mas quem consegue? Não conheço, acho. Talvez os inconsequentes; talvez as macabéias. Tudo para não ir levando aquela vidinha besta de todo dia. Acontece que a sua mesmice não é igual a minha e a minha mesmice impressiona muita gente. E agora? Não sei parar e devoro tudo. O que eu não consigo é justamente relaxar e falar foda-se. Me assusta pensar que cada vez mais eu diminuo o círculo de pessoas com quem eu consigo conversar e, portanto, conviver. Fadada à solidão? À pessoa arrogante e chata que está sempre querendo ir embora? Sempre se irritando? Não sei, não sei, mas é assustador.
E nessa hora, quero ir embora porque o pensamento nunca está ali na sala, no meio da conversa. Ele está sempre no que foi ou no que será, naquilo que interessa, naquilo que deveria estar acontecendo e, normalmente, não está. Se houvesse culpados, quem seriam? A família que te criou, a escola que te educou, as escolhas que fez, as pessoas que não fizeram igual? O breve momento de identificação releva os anos de diferença?
Permanecer, o mais insustentável dos verbos. E eu, dopada, achando que consigo. Mantenho o metabolismo basal. Aos poucos ele me mostra como é fácil. Só respirar, comer, dormir e, quando necessário, colocar para fora um pouco da alegria, da raiva, da tristeza. Ser simples. Viver simplesmente. Se manter no aqui, no agora. sem querer fugir daquilo que desconhecemos. sem querer ficar, porque ficar implica em não sustentar nem o mais trivial entre nós. sem fazer força para nada, pois sei que o nada não existe ali. ali tem peso, sempre teve, sempre terá.
No dia seguinte começa tudo de novo. respiro. como. durmo. e extravaso o sentimento do agora. e assim vou. vamos. vais.